quarta-feira, 30 de abril de 2008

Um certo João

A maioria nunca soube entendê-lo. A maioria nunca deu a ele o devido valor.

Fisicamente nunca foi belo. Mentalmente, nunca foi adulto.

Era, realmente, uma criança. Uma criançona. Por mais que o menosprezassem, nunca ficava triste. Ficava, sim, bravo, mas logo passava.

E passava. De repente, lá vinha ele com suas botinas brancas de borracha, voltando do trabalho. Nem olhava para o lado quando subia a rua com seus dois litros de leite.

Cuidava para que nada de estranho passasse despercebido. Ia à missa, cumprimentava a todos, mas sempre reparando quem foi ou quem não foi.

Nada passava. Logo, a dona Luzia, a dona Dita ou a Lúcia já estavam sabendo das "fofocas".

Nada passava, a não ser o tempo.

O tempo passava. O tempo passou. Foram 60 anos, mas quando eu o vi pela primeira vez, ele já era do mesmo jeito, do jeito que era quando se foi.

E se foi.

Tudo muito rápido. Escolheu o momento certo para que ninguém precisasse sofrer com ele, para que ninguém precisasse vê-lo sofrer.

Minha avó sentiu a falta dele depois de dois dias que ele não passou pela rua. A dona Dita também e a Lúcia também, assim como a Socorro, a Bel, a Maria, a dona Floriza, e até os meninos da rua, que sempre mexiam com ele. Mas não precisaram mais se preocupar, porque não deu tempo.

O João foi, na verdade, um anjo, mas ninguém percebeu que ele estava ali. Esperou muito tempo, quem sabe ainda na esperança de o verem, e resolveu voltar "ao pó", ou ao Pai, que foi de onde veio.

Acho que eu também não havia percebido isso, até que vi minha mãe chorando abraçada com meu pai.

E chorei também.

Um comentário:

Lenise disse...

É Dan vc tem razão o
João vai fica pra sempre
em nossa memória,mais infelizmente
não podemos fazer nada...
Mais a vida toca e vo guarda só os momentos bons que ele nos deu!
ah não esqueçe da nossa historia em !
bjãOooOoO
se cuida!
té...